19 janeiro 2012

Gabriel Celaya (1911-1991)


QUIEN ME HABITA

"Car Je est un autre."
Arthur Rimbaud

¡ Qué extraño es verme aquí sentado,
y cerrar los ojos, y abrirlos, y mirar,
y oír como una lejana catarata que la vida se de-
rrumba,
y cerrar los ojos, y abrirlos, y mirar !

¡ Qué extraño es verme aquí sentado !
¡ Qué extraño verme corno una planta que respira,
y sentir en el pecho un pájaro encerrado,
y un denso empuje que se abre paso difícilmente
por mis venas !

¡ Qué extraño es verme aquí sentado,
y agarrarme una mano con la otra,
y tocarme, y sonreír, y decir en voz alta
mi propio nombre tan falto de sentido !

¡ Oh, qué extraño, qué horriblemente extraño!
La sorpresa hace mudo mi espanto.
Hay un desconocido que me habita
y habla como si no fuera yo mismo.

 
QUEM ME HABITA

“Car je est un autre”
Arthur Rimbaud

Que estranho é ver-me aqui sentado
e fechar os olhos, e abri-los, e olhar
e ouvir, como catarata ao longe, a vida precipitar-se
e fechar os olhos, e abri-los, e olhar!

Que estranho é ver-me aqui sentado
Que estranho é ver-me como uma planta que respira
e no peito sentir um pássaro aprisionado
e um forte impulso que luta para passar nas veias!

Que estranho é ver-me aqui sentado
e apertar uma mão contra a outra
e tocar-me, e sorrir e dizer em voz alta
o meu próprio nome, tão sem sentido!

Oh, que estranho, que terrivelmente estranho!
A surpresa emudece o meu espanto
Alguém que desconheço vive em mim
e fala por mim como um estranho.


18 janeiro 2012

Nicanor Parra (1914-)

Pensamientos

Qué es el hombre
                           se pregunta Pascal:
Una potencia de exponente cero.
Nada
       si se compara con el todo
Todo
       si se compara con la nada:
Nacimiento más muerte:
Ruido multiplicado por silencio:
Medio aritmético entre el todo y la nada.

Pensamentos

O que é o homem
                            pergunta-se Pascal:
Uma potência de expoente zero.
Nada
        se se compara com o todo
Tudo
        se se compara com o nada:
Nascimento mais morte:
Ruído multiplicado pelo silêncio:
Média aritmética entre o todo e o nada.

17 janeiro 2012

John Burnside (1955-)


Notes towards an ending

No more conversations.
No more wedlock.
No more vein of perfume in a scarf
I haven't worn for months, her voice come back
to haunt me, and the Hundertwasser sky
Magnificat to how a jilted heart
refuses what it once mistook for mercy.
It's never what we wanted, everafter;
we asked for something else, a lifelong Reich
of unexpected gifts and dolce vita,
peach-blossom smudging the glass and a seasoned
glimmer of the old days in this house
where, every night, we tried and failed to mend
that feathered thing we brought in from the yard,
after it came to grief on our picture window.

Notas para um fim

Não há mais conversas.
Não há mais matrimónio.
Não mais veios de perfume num lenço
que não uso há um mês, a sua voz voltando
para me assombrar, e o céu Hundertwasser
Magnificat para um coração abandonado
recusando o que antes confundiu com misericórdia.

Nunca é o que queremos, para sempre,;
pedimos outra coisa qualquer, um Reich eterno
de presentes inesperados e dolce vita,
flores de pêssego esborratando o vidro e um maduro
vislumbre dos velhos tempos nesta casa
onde, a cada noite, tentámos e não conseguimos ressuscitar
aquela coisa de penas que trouxemos do quintal,
depois de ter vindo morrer no quadrado da nossa janela.

16 janeiro 2012

Esther Morgan (1970-)


What happens while we are sleeping

Frost. Foxes. Owl-kills.
The wheel of stars.
Thundering lorries with somewhere
to get to by dawn.

Beads of dew forming
along the telegraph wires.
A red deer delicately eating
each closed tulip like a prayer.

O que acontece enquanto dormimos

Gelo. Raposas. Assassinatos de coruja.
A abóboda celeste.
Camiões troando com algum lado
para chegar ao amanhecer.

Gotas de orvalho formando-se
ao longo dos fios do telégrafo.
Um cervo vermelho degustando delicadamente
cada tulipa fechada como uma oração.

(in Grace, 2011)

15 janeiro 2012

Ricardo Peña (1896-1949)


No sé qué dulzura vierte...

No sé qué dulzura vierte
tu soledad. Hay un eco
de rosas que nunca tuve
junto al rumor de tu pecho.

Es como el canto de un pájaro
que se recoge y en su vuelo
va despertando en el aire
lirios, cristales, luceros.

Sigo escuchando en tu pecho
no sé qué voz. Hoy el viento
es como un ángel que pasa
Con los labios entreabiertos.


Não sei que doçura semeia…

Não sei que doçura semeia
a tua solidão. Há um eco
de rosas que nunca senti
junto ao rumor do teu peito.

É como o canto de um pássaro
que se acolhe e no seu voo
vai no ar despertando
lírios, cristais, estrelas.

Sigo escutando no teu peito
uma voz que desconheço. Hoje o vento
é como um anjo que passa
com os lábios entreabertos.

14 janeiro 2012

Carol Ann Duffy (1955-)

SHIP

In the end,
it was nothing more
than the toy boat of a boy
on the local park's lake,
where I walked with you.

But I knelt down
to watch it arrive,
its white sail shy
with amber light,
the late sun
bronzing the wave
that lifted it up,

my ship coming in
with its cargo of joy.

BARCO

No fim,
nada mais restava
que o barco de brincar 
de um miúdo
no lago do parque municipal
onde passeávamos juntos.

Mas ajoelhei-me
para o ver chegar:
a sua vela branca, 
tímida na luz âmbar,
o sol crepuscular
dourando a onda
que o fazia levantar:

o meu barco entrando
com o seu carregamento
de felicidade.

13 janeiro 2012

Luis Cernuda (1902-1963)


PEREGRINO

¿Volver? Vuelva el que tenga,
Tras largos años, tras un largo viaje,
Cansancio del camino y la codicia
De su tierra, su casa, sus amigos,
Del amor que al regreso fiel le espere.

Mas, ¿tú? ¿Volver? Regresar no piensas,
Sino seguir libre adelante,
Disponible por siempre, mozo  o viejo,
Sin hijo que te busque, como a Ulises,
Sin Ítaca que aguarde y sin Penélope.

Sigue, sigue adelante y no regreses,
Fiel hasta el fin del camino y tu vida,
No eches de menos un destino más fácil,
Tus pies sobre la tierra antes no hollada,
Tus ojos frente a lo antes nunca visto.

PEREGRINO

Voltar? Que volte aquele que sinta,
depois de muitos anos, após uma longa viagem,
cansaço do caminho e da ganância
da sua terra, da sua casa, dos seus amigos,
do amor que, no regresso, fiel o espera.

Mas, e tu? Voltar? Em regressar não pensas,
mas em seguir liberto, em frente,
sempre disponível, jovem ou velho,
sem criança que te procure, como a Ulisses,
e sem Ítaca que te espere, e sem Penélope.

Vai, vai em frente e não regresses,
Fiel até o fim do caminho e da tua vida
sem ter pena de um destino mais fácil,
os teus pés sobre a terra ainda inexplorada,
os teus olhos de frente para o que nunca antes viste.