10 janeiro 2012

Don Paterson (1963-)



THE ERROR

As the bird is to the air
and the whale is to the sea
so man is to his dream.
His world is just the glare
of the world's utility
returned by his eye-beam.
Each self-reflecting mind
is in this manner destined
to forget its element,
and this is why we find
however deep we listen
that the skies are silent.

O ERRO

Como o pássaro está para o ar
e a baleia para o mar
assim está o homem para os seus sonhos.
O seu próprio mundo é apenas
um reflexo da utilidade do mundo
devolvido pela córnea do olho.
Cada cabeça que por si reflecte
está assim destinada
a esquecer o seu elemento,
e é por isso que os céus,
por mais atentamente que oiçamos,
são silenciosos.

 in Rain (2009)

03 janeiro 2012

Rafael de León (1908-1982)



Encuentro

Me tropecé contigo en primavera,
una tarde de sol, delgada y fina,
y fuiste en mi espalda enredadera,
y en mi cintura, lazo y serpentina.
Me diste la blandura de tu cera,
y yo te di la sal de mi salina.
Y navegamos juntos, sin bandera,
por el mar de la rosa y de la espina.
Y después, a morir, a ser dos ríos
sin adelfas, oscuros y vacíos,
para la boca torpe de la gente....
Y por detrás, dos lunas, dos espadas,
dos cinturas, dos bocas enlazadas
y dos arcos de amor de un mismo puente.

Encontro

Tropecei em ti na primavera,
uma tarde de sol, delgada e fina,
e foste nas minhas costas trepadeira,
e na minha cintura laço e fita.
Deste-me a suavidade da tua cera
e eu o sal da minha salina.
E navegámos juntos, sem bandeira,
pelo mar das rosas e dos espinhos.
E depois, ao morrer, fomos dois rios
sem loendros, escuros e vazios,
para a torpe boca das gentes...
E por trás, duas luas, duas espadas,
duas cinturas, duas bocas enlaçadas
e dois arcos de amor da mesma ponte.

19 maio 2011

Mark Strand (1934-)



BLACK SEA

One clear night while the others slept, I climbed
the stairs to the roof of the house and under a sky
strewn with stars I gazed at the sea, at the spread of it,
the rolling crests of it raked by the wind, becoming
like bits of lace tossed in the air. I stood in the long
whispering night, waiting for something, a sign, the approach
of a distant light, and I imagined you coming closer,
the dark waves of your hair mingling with the sea,
and the dark became desire, and desire the arriving light.
The nearness, the momentary warmth of you as I stood
on that lonely height watching the slow swells of the sea
break on the shore and turn briefly into glass and disappear ...
Why did I believe you would come out of nowhere? Why with all
that the world offers would you come only because I was here?

MAR NEGRO

Numa noite de calmaria, enquanto os outros dormiam, subi
as escadas até ao telhado da casa e sob um céu
repleto de estrelas contemplei o mar, em todo o seu esplendor,
as suas rugosas crostas alinhadas pelo vento, tornando-se
como pedaços de renda lançadas pelo ar. Ali estive, na longa e
murmurante noite, esperando por algo, um sinal, a chegada
de uma luz distante, e imaginei-te a aproximares-te,
as ondas escuras do teu cabelo misturando-se com o mar,
e a escuridão tornando-se desejo, e o desejo a luz que se abeirava.
A tua proximidade, o teu calor momentâneo estando eu parado
naquele alto solitário, observando as lentas vagas do mar
quebrar na praia e em breve a passar a vidro e a desaparecer...
Porque acreditei que do nada irias aparecer? Porquê, com tudo
o que há no mundo, virias ter comigo só porque eu estava ali?

(In Blizzard of One, 1998)